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Discurso do Copom colide com aposta do mercado

30/10/2020 às 05h01

Discurso do Copom colide com aposta do mercado

Resultado foi percebido na curva de juros, que teve um dia de aumento da inclinação, ou seja, a diferença entre as taxas longas e as de curto prazo voltou a crescer

Por Victor Rezende | Para o Valor de São Paulo


O tom adotado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, mais ameno do que o esperado, explicitou a diferença entre o cenário visto pelo colegiado e o que tem sido precificado pelo mercado. O resultado foi percebido na curva de juros, que teve um dia de aumento da inclinação, ou seja, a diferença entre as taxas longas e as de curto prazo voltou a crescer.

Ontem, a taxa do DI para janeiro de 2022 caiu de 3,49% para 3,48%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 saltou de 7,42% para 7,56%. Assim, a diferença entre os dois rendimentos passou de 3,93 pontos percentuais para 4,08 pontos.

“O Copom indicou que não vê com o mesmo nível de preocupação do mercado a preocupação fiscal e a alta da inflação no curto prazo. Apesar de ter caracterizado a inflação prospectiva como compatível com a meta, ele manteve o diagnóstico de que a aceleração recente é temporária. O Copom também reconheceu o risco elevado derivado do cenário fiscal, mas na percepção do mercado, foi algo tímido, envergonhado. O mercado esperava mais”, afirma Pedro Dreux, sócio e gestor macro da Occam.

Embora a inflação projetada pelo Copom permaneça abaixo da meta de 3,75% em 2021, o mercado se mantém preocupado com a inflação no curto prazo. Ontem, o IGP-M de outubro surpreendeu com uma taxa de 20,93% no acumulado em 12 meses, acima do consenso entre analistas.

A economista Priscila Deliberalli, do Safra, também aponta que o comunicado foi mais brando do que o esperado pelo mercado, mas classifica o documento como “bastante acertado” em um contexto de incerteza elevada para a atividade.

“Existe uma preocupação sobre o que vai acontecer depois que o auxílio emergencial terminar e há dúvidas sobre a recuperação do mercado de trabalho. Até o cenário da pandemia, que voltou a castigar a Europa, traz incerteza. O BC não podia fechar completamente a porta para eventuais novas quedas se por acaso a atividade ficar muito enfraquecida”, diz a economista.

O Safra alterou suas projeções e, após o Copom, passou a esperar que uma normalização da política monetária tenha início no quarto trimestre de 2021, com a Selic sendo levada a 2,5% em um processo bastante gradual. O banco também revisou suas projeções para a inflação e estima, agora, que o IPCA ficará em 3,5% no próximo ano.

“O câmbio não deve apreciar muito devido às questões fiscais e algum repasse para os preços deve se manter. Também devemos ver a recomposição dos preços de serviços. Além disso, os administrados foram represados neste ano e a inflação de alimentos vai ficar tranquila, mas não deve devolver toda a alta de agora”, diz Deliberalli.

Os contratos futuros de cupom de IPCA (DAP) indicam uma inflação de 3,37% neste ano e de 4,05% em 2021, apontam dados da Renascença. Os números refletem, justamente, a pressão mais recente nos preços ao consumidor.

Ao avaliar o comunicado, Dan Kawa, diretor de investimentos da TAG, diz que o documento trouxe apenas mudanças marginais, o que provocou a reação da curva de juros, com aumento da inclinação. “É como se o BC não tivesse se abalado nem com o coro do mercado para uma comunicação um pouco mais dura nem com a inflação mais alta no curto prazo”, diz.

Kawa esperava um tom mais neutro do Copom. “O BC tem convicção de que o que ele está olhando hoje indica que o juro tem de ficar onde está e ele tem tempo para identificar se a inflação é transitória ou permanente”, diz. Ainda assim, “os próximos 90 dias serão usados para avaliar o cenário e acredito que, se por acaso ele perceber que errou, a posição será revista rapidamente”, afirma.

Além do Copom, os juros futuros também se pautaram pelo leilão de títulos públicos do Tesouro Nacional, que pisou no freio em relação à oferta de papéis prefixados mais longos. A oferta de apenas 2,5 milhões de LTNs de longo prazo (para janeiro de 2024) e de somente 800 mil NTN-Fs seguiu a avaliação do Tesouro de respeitar as condições de mercado, que já estavam deterioradas nos últimos dias.

É preciso apontar, porém, que no leilão de ontem o Tesouro aumentou a oferta de LFTs para o total de até 750 mil papéis. A expectativa era de um aumento na demanda pelos papéis atrelados à Selic, já que ontem quase R$ 400 bilhões em compromissadas venceram e não foram roladas pelo BC, como parte da estratégia conjunta com o Tesouro adotada no início do mês.

O Tesouro vendeu 65% da oferta de até 750 mil LFTs, o que mostra a continuidade de um cenário desafiador, na visão de Ricardo Modé, sócio e gestor da Panamby Capital. “Se tivesse demanda mesmo, o Tesouro teria vendido o lote integral e a um bom preço. O deságio das LFTs longas voltou a aumentar”, diz. “Não é um cenário de catástrofe, mas também não é algo tão bom.”

Na visão de Pedro Dreux, da Occam, a expectativa de que o valor liberado das compromissadas pudesse migrar para os títulos públicos foi frustrada. “A limitação do tamanho da rolagem não teve o efeito desejado e houve uma migração para a compromissada overnight. Os recursos acabaram indo para a compromissada mais curta e isso não foi uma boa notícia”, afirma.

 

 

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